sexta-feira, 4 de julho de 2008

Certamente uma Amiga - Primeiro Ato

QUARTO DE ZENOBIA. NOITE.


É muito tarde da noite, e Gabrielle, Zenobia, e Yavin estão sentados a uma mesa, extremamente cansados. Eles estão portando idênticos e exaustos sorrisos. A festa rolou ao longo da noite, e eles ainda podiam ouvir os ‘vivas!’ e as repetições infindas - da narração da batalha recém travada - por aqueles que ainda estavam acordados e alertas.

ZENOBIA
(ouvindo e sorrindo)
Esse é um som que eu não ouvia
há vários meses.
(pausa)
E eu tenho que agradecer a você, Gabrielle.

GABRIELLE
(corando levemente)
Foi uma conquista do grupo. E eu
estou honrada por ter podido
fazer parte dele.


Yavin senta-se silenciosamente, olhando fixamente para dentro de sua caneca. Zenobia percebe o silêncio incomum de seu comandante.


ZENOBIA
Yavin, você parece perturbado.

YAVIN
(olhando para Gabrielle)
Nós devemos dizer a ela.


Gabrielle concorda e Yavin respira fundo antes de começar.


YAVIN
Minha Rainha, hoje ao fim da batalha,
havia um... demônio.
(pausa)
Ele veio do céu.
Ele era diferente de qualquer coisa que já vi antes.

ZENOBIA
Um demônio?

YAVIN
Sim, minha Rainha. Eu o vi com meus próprios olhos.
Ele... ele foi direto para Gabrielle.

ZENOBIA
(para Gabrielle)
Isso é verdade?

GABRIELLE
(confirmando)
Sim.

ZENOBIA
Mas . . . como você lutou contra ele?
(pausa)
Eu sei que você é uma guerreira muito habilidosa,
Gabrielle, mas... contra um demônio?

GABRIELLE
(mordendo o lábio)
É a...
(virando suas costas para Zenobia)
minha tatuagem. Ela tem uma espécie de
proteção contra forças malignas.
Ela me salvou uma vez, mas . . . .


Os três caíram em silêncio por um bom tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Zenobia olhou confusa, e tentou, várias vezes, dizer algo, somente para cair no silêncio de novo. Gabrielle percebeu, e ergueu a cabeça, com uma expressão compassiva.


GABRIELLE
O que foi?


Zenobia hesitou.


GABRIELLE
Tudo bem. O que quer
que seja, pode perguntar.

ZENOBIA
(quase aliviada)
Na outra noite, quando você correu para o
muro, eu disse que você estava escondendo
algo de mim. Eu podia sentir seu medo.
(pausa)
Esse ataque desta noite tem
algo a ver com aquele medo?

GABRIELLE
Sim. Tem.

ZENOBIA
(assentindo, satisfeita)
E . . . você pode explicar
melhor isso agora?

GABRIELLE
Posso tentar.

Mudando de posição em sua cadeira, ela se inclina para frente para colocar ambos cotovelos na mesa, sua cabeça pendurada entre seus ombros. Ela parece repentinamente cansada, mas ainda resoluta.


GABRIELLE
(continua)
Vocês dois já ouviram falar de um ser
chamado o Deus Único?

ZENOBIA
O Deus dos Elaianos?

GABRIELLE
Sim.

ZENOBIA
Sim. Quando eu era uma garotinha, um grupo
de Elaianos veio até a cidade, pedindo uma
audiência com o Faraó. Quando isso lhes foi
recusado, eles começaram a falar para o
povo nas ruas, dizendo a eles que eles deveriam
desistir de sua adoração aos nossos muitos deuses
e se voltarem para o único deus verdadeiro.
(pausa)
Eles foram escravizados por essa heresia,
no que eu me lembre.
(pausa)
Este "Deus Único" tem algo a ver
com o demônio que nos atacou?

GABRIELLE
De certa forma sim. Sabe, esse deus tem uma
contraparte que governa sobre as almas
de quem ele julgou indigno do paraíso.
E essa contraparte é um demônio, chamado
Lúcifer. E é Lúcifer que eu acredito que
esteja mandando estes demônios para cá.

ZENOBIA
Mas por que ele...
(esclarecendo-se)
Ah, talvez eu entenda. Uma vez que a
palavra desse Deus Único não nos afastou
de nossas crenças em nossos próprios deuses,
nem o Deus nem sua contraparte têm domínio
sobre nossas almas. E isso o deixa irritado.

GABRIELLE
Parece ser uma boa razão sim.

ZENOBIA
(continua)
E esse Lúcifer mandou seus demônios
atrás de você porque você está reunindo
as pessoas atrás de si, e conseqüentemente
você é a maior ameaça para ele.

GABRIELLE
É isso que eu acho, sim.


ZENOBIA
(para Yavin)
Você continua quieto.

YAVIN
Toda essa conversa de deuses e demônios está
além de um simples soldado como eu.
(pausa)
Aponte-me o inimigo e eu irei destruí-lo,
não importa quem, ou o quê, ele seja.

ZENOBIA
(sorrindo)
Talvez seja melhor deixar isso para a manhã,
depois de nós todos termos tido uma chance
de descansar.


Seguindo essa sugestão, Gabrielle e Yavin se levantaram e desejaram boa-noite um ao outro e à Rainha, depois saíram para ter uma merecida noite de sono.


CORTA PARA:


CENA INT. APOSENTOS DE LUCIFER.


LÚCIFER está parado em frente a uma mesa olhando para vários frágeis pergaminhos que estão amarrados juntos formando um grande livro. Ele passa as páginas com uma mão irritada e Xena espera, não muito pacientemente, a uma curta distância dele.


XENA
Sabe, Lucy, me preocupa que você
tenha que aprender sobre essa coisa
de mortalidade lendo um livro.


Lúcifer lança um olhar irritado por sobre seu ombro.


LUCIFER

Caso você não tenha lido o aviso, Xena,
este aqui é o Inferno. Nós quebramos coisas aqui.
Não as consertamos.
(pausa)
Criar a vida é trabalho d‘Ele’, não meu.

XENA
(chegando mais perto)
Você poderia tentar olhar na
letra “R” de “Ressurreição”

LUCIFER
(rosna)


Xena joga as mãos para cima.


XENA
Só estava tentando ajudar.

LUCIFER
Por que você não vai torturar
algo enquanto eu termino aqui?

XENA
(sorrindo)
Eu preferiria muito mais torturar você.


Em vez de responder, Lúcifer se virou de volta a seus estudos, continuando a passar as páginas do livro.


LUCIFER
Finalmente! Acho que estamos chegando a algum lugar,
agora onde é... bem aqui... eu vou ter que
arrumar uma costela?

XENA
Uma costela? Para que você precisa de uma costela?

LUCIFER
(apontando para o texto)
É o que diz aqui. “A mulher foi
criada da costela do homem."

XENA
(duvidosa)
Você tem certeza de que você está com
a versão atualizada dessa coisa?


Lúcifer vira a cabeça e rosna no rosto de Xena, rangendo os dentes. Xena sorri e se afasta.


XENA
Sensível, sensível.

LUCIFER
Tudo bem, vamos esquecer esse negócio de costela
por enquanto. Do que mais eu preciso?
(pausa)
Ah sim. Bem, isso parece fácil demais.
Mm. Hum. Sim, posso ver que isso vai funcionar.
Ah, claro, o ingrediente final.
Perfeito.

XENA
Ótimo! Anda logo e vamos colocar
essa maldita coisa pra funcionar imediatamente.
Minhas asas estão ficando tensas.

LUCIFER
(ainda lendo)
Eu não posso fazer isso aqui.

XENA
Por que não?

LUCIFER
Não vai pegar.

XENA
(irritada)
O que você quer dizer, como não vai pegar?
Como não pode pegar?

LUCIFER
Repita comigo, Xena. Você está no INFERNO.
Terra dos mortos. Lugar sem volta.
Fim da linha. Mortais não podem existir aqui.
(pausa, voltando-se para si)
Mesmo que eu quisesse. Existem alguns
mortais que eu daria meus chifres para
tê-los aqui embaixo comigo.

XENA
Se liga, Lucy. Este lugar não é muito diferente
do Tártaro e eu fiz uma viagem ou duas
lá pra baixo sem necessariamente ser um cadáver.

LUCIFER
Sim, mas 'Ele' fechou essa fenda.
(pausa)
Maldito.

XENA
(rangendo os dentes)
Ótimo. E agora?

LUCIFER
Estou pensando, estou pensando!

XENA
Você não precisa de um cérebro para isso?

LUCIFER
SILÊNCIO!!!


O quarto balançou com o poder do grito enraivecido de Lúcifer, e a poeira de sua prévia destruição pairou sobre os dois. Satisfeito por tal castigo merecido, ele voltou para o livro, ignorando completamente o olhar feroz de Xena. As garras dela se estenderam apertando seus punhos, mas ela segurou sua ira, contendo-a, por um momento, para aguardar o momento propício.


LUCIFER
Agora, onde eu estava? Ah, sim. Eu precisava mandar
você para algum lugar onde todas essas condições
prevaleçam, e ainda próximo o suficiente para você
ser capaz de usar sua forma mortal para tomar aquela
maldita cidade antes da guerra terminar.
(pausa, como se ele estivesse pensando)
Oh, sim. Perfeito. Perfeito!


Quando Lúcifer riu, os olhos de Xena se estreitaram.


XENA
Onde?

LUCIFER
(maldosamente sorrindo)
Infelizmente eu não posso te dizer ainda, minha queridinha.
Isso estragaria a surpresa, você sabe.

XENA
Lúcifer...

LUCIFER
Desculpe, Xena. Não é desse jeito
que as coisas são por aqui.
(pausa)
Espero que você goste da escuridão.


Rindo alto, Lúcifer ergueu sua mão e Xena foi imediatamente imobilizada. Enquanto ela se esforçava inutilmente para se livrar dele, ele a levitava no ar, e então a lançou através do seu PORTAL PARTICULAR para dentro do MUNDO MORTAL.


LUCIFER
(continua)
Desagradáveis jornadas, Xena.


CORTA PARA:


CENA INT. TÚNEIS SUBTERRÂNEOS. DIA.


Gabrielle está carregando um caixote para dentro de um túnel. Ela pára e olha para onde dois homens estão trabalhando em uma viga de apoio. Ela vai até lá e corre seu dedo sobre um corte que foi feito no centro da viga.


GABRIELLE
Este corte está perfeito. Agora tratem de
reforçá-lo e depois passar a corda de trava até
cerca de seis passos antes desta viga. Se
alguém tentar passar por ela, quando chegar
nesta posição, o teto irá desabar sobre eles e eles
não saberão o que os atingiu.


Os homens assentiram e voltaram a trabalhar enquanto Gabrielle pegava sua caixa e continuava indo mais longe dentro do túnel. Ela pára de novo e remove um FRASCO de Fogo Grego, entregando-o à mulher que trabalhava na próxima armadilha.


GABRIELLE
Agora será muito importante encharcar estes
trapos pelo caminho todo em volta da abertura,
pois quando eles tropeçarem na corda,
a tocha irá cair e acender o fogo.

MULHER
(derramando óleo)
Assim?

GABRIELLE
Sim, exatamente assim. Trate de fazer
o mesmo por todo o caminho em volta.


Mais uma vez, ela recupera a caixa e se vira. Na sua terceira parada, ela observa homens empurrando uma grande viga com múltiplos pregos pontudos saindo de toda sua extensão.


GABRIELLE
Bom trabalho.
Isso pararia até um agitado Minotauro.


Ela entrega a caixa a um homem que a carrega em frente, enquanto ela examina tudo o que está sendo feito à sua volta. Ela vira sua cabeça levemente quando uma sombra se projeta sobre ela. Ela vê Zenobia se mover perto dela.


ZENOBIA
As coisas estão sendo feitas como você queria?

GABRIELLE
Eles estão chegando lá.
(pausa)
Deuses, espero que não venha até aqui.

ZENOBIA
Nenhum de nós quer isso.
Venha, deixe-me te mostrar algo.


Gabrielle segue Zenobia para dentro de um grande aposento com vários outros túneis saindo dele. A Rainha aponta para várias pessoas que estão pintando símbolos nas paredes.


GABRIELLE
O que é isso?


ZENOBIA
As pessoas estão tomando o seu exemplo.
Estes são nossos símbolos sagrados. Eles
esperam que isso possa nos proteger da mesma
maneira que você foi protegida.

GABRIELLE
(sorrindo)
Esta é uma idéia muito boa. Vamos esperar
que isso seja suficiente e que nós não precisemos
contar com minhas medidas mais drásticas.

ZENOBIA
Gabrielle, nosso inimigo mudou.
Você está apenas fazendo o que é melhor.

GABRIELLE
Não significa que eu tenha que gostar disso.

ZENOBIA
Talvez não. Mas não seria melhor se,
por agora, você agisse como se você gostasse?


Gabrielle circunda Zenobia, com as mãos na cintura.


GABRIELLE
O que você quer dizer com isso?


Zenobia joga as mãos para cima.


ZENOBIA
Apenas que estas pessoas têm você como exemplo,
Gabrielle. Se você estiver nervosa, ou hesitante
durante suas ações, não importa por qual razão,
eles irão pegar isso de você e se apegar a isso.
(pausa)
Mas claro, como uma guerreira, você
já sabe disso tudo.

GABRIELLE
Zenobia, aqui dentro...
(tocando seu tórax)
eu sou uma barda. Uma simples contadora de estórias.
Eu luto porque eu tenho que fazer isso, mas não significa
que eu tenha que ter prazer com o meu trabalho.

ZENOBIA
Então por que lutar? Por que colocar a si mesma diante
de tanta dor e sofrimento?

GABRIELLE
(doce, mas apaixonadamente)
Por causa de algo que eu aprendi em
minhas viagens pelo mundo.
Minhas viagens com Xena.
(pausa)
Às vezes o mundo precisa de guerreiros tanto
quanto precisa de pacificadores. Porque
às vezes, a paz é algo pelo qual se deve lutar,
não importa o quanto isso custe.

ZENOBIA
Mesmo se o custo for a sua alma?

GABRIELLE
(assentindo com a cabeça)
Sim. Mesmo assim.


(pausa)
Agora, se você me der licença, eu tenho
algumas armadilhas pra terminar de colocar.


Gabrielle se vira e continua andando pelo corredor escuro, deixando Zenobia observar sua retirada com um olhar perturbado em sua face.


FADE OUT.

FINAL DO PRIMEIRO ATO

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