CENA EXT. VILAREJO DE MILLTOS - À TARDE
Xena e Gabrielle cavalgam juntas em Argo para os portões do pequeno e um tanto miserável vilarejo. Os portões estão amarrados juntos com gravetos, e de ambos os lados deles estão imundas pequenas fazendas, com jardins cheios de esparsas galinhas e cabras. O ar dali está pesado, mas em boa ordem. Não há humanos à vista.
Xena e Gabrielle param nos portões e olham em volta.
GABRIELLE
Este lugar parece
bastante inofensivo.
Xena olha por sobre o ombro para Gabrielle, e sorri calorosamente para ela.
XENA
Nunca se sabe. Eu achava
que Potedia era inofensiva,
e olha o que eu encontrei lá.
Gabrielle não reagiu por um momento, depois se inclinou até Xena e a abraçou. Xena ficou um pouco confusa com essa reação.
XENA
(continua)
Desculpe. Minhas piadas estão meio desgastadas.
GABRIELLE
Essa é uma das coisas que eu mais senti falta.
XENA
(intrigada)
Minhas piadas ruins?
GABRIELLE
Seu senso de humor.
Você não tinha mais ele quando era um fantasma.
XENA
Não, acho que não tinha mesmo.
Também, não havia muito do que rir.
Xena olha para o nada, depois guia Argo para os portões e abre o trinco. Argo se afasta para trás e puxa os portões, abrindo-os e seguindo com elas para dentro.
ESVAECE (FADE) PARA:
5.
CENA EXT. TAVERNA DE MILLTOS - À TARDE
Xena e Gabrielle cavalgam pelo vilarejo e sobem para a taverna. A taverna de Milltos é uma estrutura relativamente simples. Sua placa está quebrada, pendurada para baixo por uma tramela e rangendo com a brisa. O exterior é remendado e roto.
Enquanto Argo chega na taverna, os habitantes da vila vagarosamente aparecem, saindo das casas e das esquinas para vê-las. Os aldeões estão vestidos mais ou menos iguais, todos com aventais de tecidos caseiros amarrados sobre roupas trabalhadas com um entalhe, com a figura de uma faca costurada nelas.
XENA
(baixinho, para Gabrielle)
Está vendo aquele símbolo?
GABRIELLE
Sim, o que é?
XENA
Antes eu soubesse,
mas eu aposto que nós vamos descobrir.
Gabrielle lança um olhar para Xena.
GABRIELLE
Lembre-me de pensar novamente
sobre aquela coisa do senso de humor.
Xena sorri.
A multidão circunda Xena e Gabrielle e olha curiosamente para elas, apontando e sussurrando. Xena e Gabrielle olham uma para a outra, depois desmontam das costas de Argo. A estalajadeira vem para fora para encontrar-se com elas. Ela é uma mulher de traços finos e paralelos, que já viu melhores dias, com uma cara fechada e contraída, e um corpo esquelético.
ESTALAJADEIRA
Qual o desejo de vocês, viajantes?
XENA
(baixinho, para si)
Você não gostaria de saber?
Gabrielle abre a boca para falar, mas pára ao ouvir o comentário indecente de Xena e se vira para dar um beliscão nela. Xena sorri maliciosamente.
GABRIELLE
(pigarreia)
Nós gostaríamos de um quarto.
Você tem algum?
A estalajadeira ri desagradavelmente.
ESTALAJADEIRA
Ter algum? Ó sim, nós temos um
monte deles. Venham comigo, forasteiras.
Vamos instalar vocês lá em cima!
Xena não gosta muito de como isso soa, mas ela não consegue descobrir nenhum perigo imediato. Ela começa a seguir a estalajadeira até lá dentro, quando ouve um som de pessoas lutando que vem da estrada.
GABRIELLE
O que foi isso?
ESTALAJADEIRA
(continua)
Rápido, rápido, para
dentro, faz favor!
A estalajadeira tenta apressá-las para entrar. Xena e Gabrielle a ignoram, tomam suas armas e vão em direção ao som da briga.
CORTA PARA:
6.
CENA EXT. ESTRADA DO VILAREJO DE MILLTOS - À TARDE
Um monte de homens vestidos com aventais estranhos, além de capuzes nas cabeças, cercam um prisioneiro amarrado. O prisioneiro está enrolado em tiras de pano da cabeça aos pés, nas quais estão pintados vários símbolos. O prisioneiro está visivelmente aterrorizado, seus olhos estão quase saindo das órbitas, mas sua boca está amarrada e ele não pode falar.
Os homens encapuzados arrastam o prisioneiro pela rua. O prisioneiro se debate - ele é um homem muito forte e chuta vários deles nos pés, mesmo estando todo amarrado.
O prisioneiro cai, e os homens o arrastam para frente, depois o puxam para cima, deixando-o de pé. Os homens começam a cantar bem alto:
HOMENS
Toola! Toola! Toola!
Xena e Gabrielle correm em direção aos homens.
GABRIELLE
Parem! Soltem-no!
HOMEM ENCAPUZADO
Peguem-nas!
Os homens encapuzados correm até Xena e Gabrielle com cajados e estacas, atacando-as ferozmente.
XENA
Vocês realmente não vão querer fazer isso!
Xena toma a estaca da mão de um dos homens e a quebra, depois o chuta no peito, arremessando-o para trás várias vezes. Ao mesmo tempo, Gabrielle derruba um dos homens encapuzados com um chute circular, então usa seus sais para golpear outros dois, deixando-os inconscientes.
GABRIELLE
Ela está certa. Por que nós não
paramos agora? Antes que...
Um homem salta sobre Gabrielle e a agarra, levando-a ao chão. Eles travam uma luta corporal, quando Xena se vira e os vê. Xena pula sobre os dois homens que estavam tentando agarrá-la e chuta-os por trás no meio do ar, jogando-os em direção de um cavalo que estava perto. Gabrielle está se debatendo com o seu oponente. O homem é muito maior que ela.
XENA
Gabrielle!
Gabrielle rola de debaixo de seu atacante e recua um punho, então o golpeia duramente no queixo. A cabeça do homem balança para trás e ele cai achatado no chão. Gabrielle se levanta e olha em volta. Xena pega um dos últimos atacantes e o gira, derrubando outros dois. Ela o solta, e ele voa por sobre a estrada, indo pousar em uma pilha de estrume do lado de fora do celeiro.
GABRIELLE
Na mosca!
XENA
Não. No esterco.
(pára, apontando para o prisioneiro)
Liberte-o.
Gabrielle vai até o prisioneiro. Ela toma uma adaga e desliza pelas amarras de linho, libertando o homem.
GABRIELLE
Calma… está tudo bem.
O prisioneiro freneticamente puxa seus membros para fora, se livrando das amarras, e assim que se vê livre, ele se vira e foge para os portões, correndo o mais rápido que pode.
GABRIELLE
(continua)
(grita)
De nada!
Xena caminha até Gabrielle e coloca uma mão no seu ombro.
XENA
Você está bem? Eu achei que
aquele cara tinha pegado você.
Gabrielle esfrega a testa e descarta a adaga. Ela está tremendo um pouco, os dias sem dormir tiveram suas conseqüências e ela sabe disso.
GABRIELLE
Sim, estou bem. Vamos deixar esses
arrepios para depois, Xena, e
descobrir o que está acontecendo.
Xena olha preocupada, mas apenas toca Gabrielle nas costas e elas começam a caminhar em direção à taverna.
CORTA PARA:
7.
CENA EXT. TAVERNA DE MILLTOS - MOMENTOS DEPOIS
Uma multidão está se agrupando. Eles vão circundando Xena e Gabrielle enquanto elas se aproximam. Xena se dirige à estalajadeira.
XENA
Quem é a lei aqui?
ESTALAJADEIRA
Boa pergunta!
A multidão começa a resmungar irritadamente. Um homem surge correndo de repente.
HOMEM
Ele se foi! Nós nunca iremos pegá-lo!
Ele cruzou o rio!
Xena e Gabrielle trocam olhares.
GABRIELLE
Você está procurando por um dos atacantes?
A maioria deles está pela estrada.
ESTALAJADEIRA
(apontando para Xena e Gabrielle)
Foram elas! As forasteiras! Elas atacaram os
sagrados e deixaram ele fugir!
GABRIELLE
(baixinho)
Os sagrados?
XENA
Estou com um mau pressentimento
quanto a isso.
A multidão começa a se revoltar. Pedras e galhos começam a voar. Xena e Gabrielle imediatamente tomam suas armas e vão andando para trás, prontas para se defenderem. Xena derruba os galhos do ar com sua espada.
ESTALAJADEIRA
Elas atacaram! Eu as vi!
GABRIELLE
Esperem! Vocês entenderam tudo errado!
Um homem alto, austero e barbado, repentinamente caminha até o centro da multidão, e ergue suas mãos. Seguindo-o, está um grande grupo de homens com capuzes e aventais, agora obviamente em autoridade.
HOMEM
Silêncio!
A multidão pára de repente, e seria possível ouvir um alfinete cair se eles não estivessem em uma rua empoeirada.
HOMEM
(continua)
Elas serão julgadas de
acordo com nossos costumes.
Xena já tinha agüentado o suficiente.
XENA
Julgadas pelo quê? Nós salvamos
a vida daquele pobre sujeito!
HOMEM
Por quebrar nossas leis, e colocar a
todos nós em grande perigo. Tragam-nas
para a sala de assembléia do conselho!
A guarda encapuzada cercou Xena e Gabrielle, apontando lanças aparentemente letais e arcos medievais para elas.
FADE OUT.
FIM DO PRIMEIRO ATO
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